Produtos programados para morrer

Você descarta frequentemente objetos sem antes avaliar a possibilidade de consertá-los? Costuma trocar aparelhos ainda em funcionamento por uma versão mais nova do mesmo? Já comprou alguma vez por impulso, mesmo sabendo que aquele objeto não seria muito útil para você? Se você respondeu sim para as perguntas acima, saiba que você é vítima da obsolescência programada.

A obsolescência programada é uma técnica utilizada por fabricantes. Ela consiste em produzir itens já estabelecendo o término da vida útil deles. Esse conceito surgiu entre 1929 e 1930, tendo como pano de fundo a Grande Depressão, e visava incentivar um modelo de mercado baseado na produção em série e no consumo, a fim de recuperar a economia dos países naquele período – algo parecido ao que ocorre atualmente, em que o crédito é facilitado e os governantes incentivam o consumo.

Algumas vozes, contudo, vêm surgindo e alertando sobre essa prática. Um exemplo é o empresário espanhol Benito Muros, fundador da empresa OEP Electrics e do movimento Sem Obsolescência Programada (SOP). O movimento SOP, diz Muros, tem três objetivos: “Difundir o que é a obsolescência programada e como isso nos afeta; tentar colocar no mercado mais produtos com duração mais longa, a fim de forçar a competição; e tentar unir todos os movimentos sociais para tentar mudar o modelo econômico atual”. Ele diz ser possível comprar produtos que tenham vida útil prolongada e cita o exemplo da lâmpada que brilha na sede de bombeiros de Livermore, na Califórnia, há mais de 100 anos.

No documentário “The Light Bulb Conspiracy” (A conspiração da lâmpada elétrica), a diretora Cosima Dannoritzer mostra casos semelhantes. Um deles é das impressoras a jato de tinta que teriam um sistema especialmente desenvolvido para travar o equipamento depois de um certo número de páginas impressas, sem a possibilidade de reparo. No filme, um rapaz vai à assistência para consertar sua impressora. Os técnicos dizem que não há conserto. O rapaz então procura na internet maneiras de resolver o problema. Ele descobre um chip, chamado Eeprom, que determina a duração do produto. Quando um determinado número de páginas impressas é atingido, a impressora trava.

O reparo de um produto, no entanto, às vezes não é possível. Annie Leonard criou um vídeo na internet que virou sensação, o “Story of Stuff” (“Histórias das coisas”, em português), no qual relata que abriu dois computadores para ver o que havia de diferente dentro deles. Ela descobriu que é uma pecinha que muda a cada nova versão lançada. Contudo, a forma dessa peça também é alterada, o que obriga o consumidor a comprar um computador novo, em vez de apenas trocar a peça.

obsolescencia

No mesmo vídeo, Leonard lembra que além da obsolescência programada, há também a obsolescência percebida, que “nos convence a jogar fora coisas que são perfeitamente úteis”. Isso acontece porque a aparência das coisas muda, os objetos ganham novas funções e a publicidade está em todos os lugares.

Lixo eletrônico

O problema disso tudo são os desperdícios de recursos naturais e o lixo criado de forma desnecessária, que, em muitos casos, são enviados para os países pobres como se fossem produtos de segunda mão. Uma lei internacional proíbe que lixo eletrônico seja levado de um país para outro, mas alguns países não a respeitam.

O problema é que um vasto número desses aparelhos é composto de materiais não biodegradáveis ou com um longo tempo para que esse processo ocorra. Os equipamentos eletrônicos, por exemplo, contêm materiais contaminantes como o plástico, que demora 100 a mil anos para se degradar. Além disso, eles possuem outras substâncias altamente poluentes. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), das 2,5 milhões de toneladas de chumbo geradas anualmente em todo o mundo, três quartos desse total são para fazer baterias, que são utilizados em carros, telefones e laptops ou indústrias.

Ainda segundo o Pnuma, o Brasil é o país emergente que mais gera lixo eletrônico por pessoa a cada ano, devido à estabilidade econômica e a facilidade de obtenção de crédito. Mas ainda não há, no país, um destino correto para esse tipo de resíduo.

Alternativas

Os governos de alguns países estão atentos a esse problema. A União Europeia, por exemplo, solicitou aos fabricantes que produzissem itens mais duráveis. Já a Bélgica aprovou uma resolução no senado para lutar contra a obsolescência planejada. Na França, um partido ambientalista apresentou no senado um texto em que critica a produção de itens com uma data de validade já planejada, seja por um defeito, uma peça frágil, ou outro problema parecido. Quem infringir essa lei pode pegar mais de 10 anos de prisão e pagar multa de até 37,5 mil euros.

No Brasil, em fevereiro de 2013, o Instituto Brasileiro de Direito da Informática (IBDI) moveu uma ação contra a afiliada brasileira da empresa norte-americana Apple. O advogado responsável pelo processo, Sérgio Palomares, alegava um intervalo um pouco maior de 5 meses para o lançamento do iPad 4, que, segundo ele, apresentava poucas mudanças em relação a versão anterior, iPad 3. Nos EUA, o intervalo foi de sete meses e a Apple trocou o produto dos consumidores que tinham comprado a versão anterior há pouco tempo. O juiz que julgou a ação, no entanto, não reconheceu nenhum prejuízo ao consumidor nesse caso.

 

Leia mais em: http://www.ecycle.com.br/component/content/article/35-atitude/1721-produtos-programados-para-morrer.html?lb=no&utm_source=eCycle&utm_campaign=686abc268c-Newsletter_238_17_06_2016&utm_medium=email&utm_term=0_ca1df616f8-686abc268c-150575977&mc_cid=686abc268c&mc_eid=1e25214a56   Acesso 21/06/2016.

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Sobre Orandyr Luz

Consultor, articulista e palestrante, especialista em gestão condominial. Autor dos livros "Evolução Histórica do Condomínio Edilício", São Paulo/SP: Editora Scortecci, 2013, "O condomínio daquela rua - Histórias e causos nesse ambiente peculiar", São Paulo/SP: Editora Biblioteca 24horas, 2015 e "O condomínio & você - Práticas de gestão condominial", Curitiba/PR: Ed. Juruá, 2018. Ciclista, leitor, cidadão.
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Uma resposta para Produtos programados para morrer

  1. Hélio Domingues disse:

    adorei! Parabéns pelo trabalho.

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