Passeio dominical

O senhor Agamenon morava há menos de um ano naquele condomínio-clube com sete torres e inúmeros itens de lazer… Sozinho!

Ele tinha hábitos totalmente fora dos padrões. Ficava até tarde ouvindo músicas de gosto duvidoso e em alto volume. Saía pouco, mas, quando saía era – via de regra – de madrugada ou no meio da tarde.

Era daqueles que não se importava muito com sua aparência. Suas roupas eram esquisitas; ora muito coloridas, ora inteiramente pretas. Destas, aliás, gostava muito.

Não cumprimentava ninguém, recebia quase nada de correspondências e visitas. Alguns porteiros, que lá trabalharam apenas alguns meses, sequer se lembram de seu nome.

Assembleias ou reuniões nunca o viram. Apesar de sempre ter sido convocado ou convidado para esses encontros, nunca compareceu.

Às vezes andava a esmo pelo condomínio em trajes que lembravam pijamas. Mas, como não incomodava e normalmente já era bem tarde, quase ninguém o via nessas ocasiões.

Porém, naquela madrugada aconteceu!

Justo naquela noite uma grande festa transcorria no salão do condomínio. Eram as primeiras horas do domingo e a festa acabou se estendendo até mais tarde.

O porteiro, meio sonolento no seu posto, olhando as imagens das câmeras de segurança viu, de repente, que alguém estava no elevador sem roupa alguma.

Outra imagem mostrava diversos convivas no hall social…

Pois bem, o senhor Agamenon – nu em pelo – saiu do elevador no pavimento térreo, bem próximo ao salão de festas, deu uma volta com a cabeça erguida, sem fitar propriamente a ninguém, e do jeito que saiu do elevador retornou a ele, e voltou para casa…

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É… administrar condomínios não é tarefa fácil!

Depois de quase vinte anos militando nessa área você acha que já viu tudo, que conhece todos os seus meandros, mas, basta um episódio desses para reforçar aquela máxima – no condomínio tudo pode acontecer, tudo!

Como a atitude do condômino não se revestiu de atentado ao pudor, soube-se depois que ele sofria de sonambulismo, não houve maiores consequências. Mas, não fosse por isso, esbarraria na esfera do direito penal, e poderia ensejar que a polícia fosse chamada, ou, pelo menos, se registrasse o boletim de ocorrência, eximindo a administração de qualquer responsabilidade.

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De mãe para filha…

Ela é filha daquela juíza que lutou muito para preservar seu papel de parede em seu hall social (no causo Papel de parede, publicado em 03/08/2017, categoria Administração). E também mora em um condomínio, nos mesmos moldes do de sua mãe…

E eis que ela chegou atrasada em casa, vindo do trabalho, com o compromisso de, logo mais, participar do jantar de confraternização de sua empresa.

Assim, tinha ainda que subir até o apartamento, tomar um banho e trocar de roupa, como se isso fosse tomar apenas alguns minutos de seu já escasso tempo.

Para completar, a assembleia, ali no salão de festas, próximo dos elevadores, estava só começando…

É!… Aquele dia estava sendo para ela, efetivamente, ‘um dia de cão’! Nada deu certo: choveu pela manhã, o que a impediu de fazer sua caminhada matinal no calçadão; no escritório, a rede e a telefonia caíram a tarde toda e, assim, perderam-se contatos e contratos.

Quando desceu à garagem, ainda na empresa, o pneu traseiro do lado do motorista estava furado. Depois, teve que enfrentar aquele trânsito. “Ah, que trânsito…” – pensou, pensou, mas não achou nenhum termo adequado para qualificá-lo.

E, nos semáforos, ainda teve que aguentar o assédio daquele monte de vendedores, oferecendo de tudo, o tempo todo. Mas, por que isto a incomodou tanto? Ah, sim! O ar condicionado do carro simplesmente parou de funcionar. Aí, não teve como, o vidro precisou ficar aberto.

Não bastasse, nem deu tempo dela passar na loja de bebidas, para comprar o presente do gerente comercial, que tinha tido um desempenho espetacular naquele bimestre.

“Vejo na adega de casa, mesmo. Pego alguma coisa por lá e pronto!” – pensou ela.

E ali continuava ela, no hall, esperando o elevador…

Então, resolveu dar só uma espiadela na assembleia, quando viu seu desafeto – aquele seu vizinho ao lado que ‘tirava seu sossego’ com intermináveis barulhos – falando exatamente sobre problemas recorrentes no condomínio, dentre os quais os barulhos de que ele era vítima, etc., etc.

Quando se deu conta, estava lá na frente, junto à mesa.

A discussão, então, começou ferrenha! Um não deixava o outro falar… Alguém, da mesa, até tentou conter os ânimos… Em vão!

Ela tirou um de seus sapatos e tascou na cara do seu adversário, enfiando o salto em sua bochecha…

Não se sabe se conseguiu ir à festa de sua empresa e nem, tampouco, se ela se lembrou de levar o presente do seu gerente…

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A “arte” de se conviver em condomínios…

Sim, é uma arte, e independe do nível cultural, intelectual, social dos envolvidos.

Incidentes, acidentes, tragédias acabam por ocorrer nas circunstâncias menos prováveis.

A ‘gota d’água’ às vezes decorre de um mero detalhe… um dia ruim, o elevador que demorou, o local da assembleia, o horário da reunião, enfim, qualquer coincidência pode propiciar um embate acalorado, cujas consequências são, literalmente, imprevisíveis.

Nesse causo o que faltou, segundo relatos, teria sido um número maior de presentes à assembleia, para reforçar a turma do ‘deixa disso’, que não teve suficiente pulso para demover os contendores daquele bate-boca.

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Acima de qualquer suspeita

A assembleia discutia sobre a necessidade de se implantar – ou não – câmeras de segurança nas áreas comuns.

Furtos de equipamentos do prédio vinham ocorrendo, bem como de equipamentos de som dos carros, nas garagens. Até algumas chaves storz, aquelas que travam o esguicho na mangueira de incêndio, tinham sumido.

Depois de longa e exaustiva discussão, o síndico – querendo economizar – disse que o mais viável seria a implantação de uma revista, na saída do prédio, de todos os transeuntes com sacolas e/ou mochilas.

Apesar de cansados desse assunto, eis que chega até a assembleia a notícia de que outro quebra-vento de um dos carros na garagem havia sido quebrado e mais um rádio furtado.

O condômino – dono do carro e presente na reunião – esbravejou muito, exigindo uma solução.

Assim, antecipara o final da reunião e foram para a guarita. Lá chegando, avistaram o filho do síndico, acompanhado de outros rapazes, também moradores, vindo em direção à saída.

Em meio ao tumulto que se formou, berrou o síndico:

– Vou começar a revista agora, e, para dar o exemplo, o primeiro a ser abordado será o meu filho!

Parou o filho e pediu para examinar sua mochila e a sacola de um dos amigos, e, para surpresa e espanto geral, o rádio que havia sido furtado estava bem ali, na mochila dele!

Pois é, como bem disse o síndico, “o exemplo tem começar em casa”, não é mesmo?

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Furtos e roubos em condomínios acabam acontecendo…

Extintores, capachos, vasos de plantas, lustres, aparelhos de TV, microcomputadores, e tantos outros objetos, sejam do próprio condomínio, sejam de condôminos, são subtraídos diariamente.

Normalmente, são atribuídos a pessoas que vêm e vão diariamente, como fornecedores, prestadores de serviços, entregadores, etc. Nem sempre é possível identificar o infrator, especialmente quando o responsável convive no seio condominial, mas, como vimos, um dia a casa cai.

Apesar de ser assunto de polícia, esse tipo de ação pode ser, digamos, controlado pela administração, aumentando a iluminação de certos locais, instalando um eficiente e bem estudado circuito fechado de TV, dentre outras iniciativas, previamente discutidas e aprovadas em assembleia.

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O condômino e a donzela

É um condomínio-clube, com mais de seiscentas unidades autônomas e inúmeros itens de lazer.

Certo condômino – que costumava levar garotas de programa para seu apartamento enquanto sua esposa estava no trabalho – era conhecido de longa data do pessoal da portaria como sendo ‘da pá virada’.

Naquele dia, não foi diferente. A donzela se fez anunciar na portaria e ele autorizou sua entrada.

Porém, diferente foi a esposa do manjado contumaz chegar totalmente fora do horário, quando a donzela ainda não tinha saído…

Bem que o porteiro tentou… Na verdade, ele tentou proibir a condômina de adentrar o próprio edifício onde morava!

Nem é preciso dizer que a senhora ficou muito indignada, sem entender nenhuma das inúmeras desculpas esfarrapadas que ouviu. Assim, num descuido do porteiro, ela entrou junto com um fornecedor que ia fazer reparos na casa de bombas.

Até onde se soube, o porteiro ainda tentou avisar o condômino pelo interfone.

Porém, instante depois, o que se viu foi a donzela chegar à portaria – correndo, esbaforida – somente de calcinha e sutiã!

Enquanto isso, lá no apartamento deles – segundo relatos de vizinhos mais próximos – o couro comeu!

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Basicamente o que se procura analisar aqui é o direito à privacidade do condômino.

Sem entrar no mérito da conduta do protagonista, a administração não pode e não deve se imiscuir na vida particular de cada um.

A entrada daquela pessoa, tida como “de vida fácil”, não deve ser proibida pelos funcionários da portaria se não há histórico de exagero, desrespeito ou qualquer tipo de atitude que afronte o bom senso e a civilidade no ambiente condominial.

Há, inclusive, uma lei – a de nº 5.553/1968 – que disciplina no parágrafo 2º do art. 2º a conduta dos que trabalham em portarias de condomínios, flats, em relação à retenção do documento de identidade do visitante, a que título for.

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A frágil democracia condominial

O condomínio, por suas características intrínsecas, é o tipo de ambiente que pode propiciar a criação de “panelinhas”, grupos antagônicos na forma e no entender de como administrar o patrimônio comum.

Debates acalorados em assembleias cheias, apresentação de ideias, propostas incompatíveis entre si não são sinônimos, necessariamente, de que as coisas andam tumultuadas por lá. Muito pelo contrário, na maior parte das vezes.

Podem significar, isso sim, que os interesses coletivos estão sendo preservados e conduzidos democraticamente.

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O que se observa, em alguns casos, é a existência de um ‘grupo dominante’ dentro do condomínio que tenta – e acaba impondo – seus pontos de vista, convencendo a todos de que se trata da melhor solução em cada caso concreto.

Quando falo ‘grupo dominante’, não quero dizer, fundamentalmente, do ‘grupo do síndico’.

Muitas vezes, mesmo não assumindo diretamente a administração, numa frequência sabidamente indesejada, esse grupo impõe, de alguma forma, suas sugestões ao síndico, chegando até a constrangê-lo em algumas ocasiões.

Essa atitude, quando revestida do espírito de colaborar com a gestão, de contribuir com experiências em determinadas situações, é digna de aplausos.

Mas, quando passa para a categoria do “legislar em causa própria”, defendendo interesses contrários à maioria, é nefasta, obtusa e desgastante.

Participe sempre das reuniões em seu condomínio, uma das formas para inibir essa postura, ou quem sabe reduzir sua importância e seus impactos.

Tema sugerido por Roseane M. B. F.

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Travesseiro respirando na janela

 

Um grande amigo morava em Higienópolis, bairro tradicional na capital paulista.

Ele trabalhava o dia todo; chegava tarde em casa, mas, mesmo assim, ainda sobrava alguma energia para administrar os afazeres domésticos.

Ele tinha, também, uma mania – pode-se dizer assim, na falta de uma palavra mais adequada – de abrir janelas e portas para o ar circular, bem como de colocar cobertas e travesseiros na janela para tomar sol.

Pra respirar!” – dizia.

Certo dia, pela manhã, preparando-se para ir ao trabalho – mas, na verdade terminando seu café da manhã – percebeu que, da cozinha, vinha uma algazarra lá de baixo. Foi verificar e constatou um monte de gente apontando para cima, gesticulando, falando alto… E, então, ele ouviu a palavra fogo!!!

Assim, desceu imediatamente, juntou-se à turba, olhou para cima e viu que um travesseiro – na janela do segundo andar – estava em chamas!

“Ei, ‘pera’ aí, é o meu apartamento!!!” – ele gritou.

Subiu correndo pela escada, sem esperar o elevador… Entrou esbaforido em seu apartamento, indo direto para a área de serviço.

Por ali, tinha um balde com uns panos de chão de molho…

Ele o pegou e, rapidamente, jogou aquela água – com pano e tudo – no travesseiro que, há pouco, tinha colocado para respirar. E, tudo despencou janela abaixo!

Em seguida, desceu para resgatar a ‘vítima’ e percebeu que havia uma bituca de cigarro toda encharcada…

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Todo regimento interno deve prever punição severa a quem joga o que quer que seja pela janela.

O risco de acertar alguém com um objeto de massa considerável é grande, e as consequências desse ato são imponderáveis, na justa medida do resultado verificado.

Jogar uma bituca de cigarro ainda acesa é o cúmulo da irresponsabilidade, da imprudência, uma atitude verdadeiramente irrefletida.

A maior ou menor constatação desse tipo de ocorrência passa, sem sombra de dúvida, pela dificuldade de o condomínio identificar o infrator, num primeiro momento.

O que não impede, em casos mais graves, de se acionar a polícia, envolvendo a realização de perícias mais apuradas para se chegar ao dono das digitais encontradas no objeto lançado.

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O papel de parede

Edifício é classe A, numa grande cidade; dois apartamentos por andar; o hall social – no oitavo andar, comum àqueles dois vizinhos – tem um bom tamanho, mas, a parede pintada apenas de branco parece incomodar olhos mais sensíveis.

Há dois atores com alto poder aquisitivo. Ele é um grande empresário do ramo de transportes; ela, um pouco impaciente e um tanto intransigente, é juíza de direito da comarca da capital.

Eles não se conhecem, nunca se viram ou se encontraram no elevador ou na garagem. Os estilos de vida e horários são totalmente distintos.

Então, pouco tempo depois que ela se instalou devidamente em sua unidade, providenciou, imediatamente, a instalação de um papel de parede, a seu gosto.

Por algumas semanas – ao chegar ou sair – se deleitava com a linda paisagem que escolhera para o hall.

Até que, um dia, foi surpreendida com a troca.

Nem pensou duas vezes. Ali mesmo, tirou o telefone da bolsa e contratou a mesma empresa para refazer o serviço. A mesma paisagem!

Porém, desta vez, o sossego durou menos. Em poucos dias, um novo papel de parede de ‘gosto duvidoso’ fora instalado.

Era um final de tarde e ela estava chegando do trabalho; havia manifestação popular nas ruas, e o trânsito, daqueles…

Estacionou seu carro na garagem, entrou no elevador.

Quando percebeu que – não, de novo! – trocaram seu ‘lindo’ papel de parede, foi direto à porta do vizinho e tocou a campainha.

Um senhor em trajes informais, como se tivesse acabado de jogar uma partida de tênis, atendeu à porta. E ela, sem se apresentar e nem deixar seu interlocutor esboçar qualquer palavra, foi logo avisando:

– Escuta aqui, meu senhor, o meu papel de parede é mais bonito. Vou mandar instalar de novo. Não discuta, sou autoridade aqui!

E, virando as costas, entrou em seu apartamento.

Tal fato aconteceu recentemente. Até o momento, não se teve notícia se a disputa ainda continua, ou não…

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Essas coisas acontecem…

A rigor dos dispositivos regimentais, eu conheço bem o texto, os dois estão errados, a nenhum deles é dado o poder, a seu bel prazer, de alterar a fachada interna do edifício.

A troca de portas, a instalação de um aparador, com ou sem um vaso de plantas, um quadro, ou o papel de parede só seria possível com a anuência da assembleia.

E, óbvio, desde que nada obstrua a rota de fuga, nem os equipamentos contra incêndio.

Há quem não concorde, afinal são dois apartamentos por andar, aquele hall do oitavo andar só interessa aos dois moradores.

Se não houver disciplinamento específico no regimento interno, uma assembleia pode deliberar quanto à conveniência dessas alterações, restritas a cada andar do prédio, a critério, portanto, dos envolvidos, considerado o “óbvio” supramencionado.

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Vou entrar de qualquer jeito!

A época é de manutenções naquele condomínio localizado em bairro nobre da capital paulista. A fachada é vitoriana e os sobrenomes, quatrocentões. O corpo diretivo – síndica e conselheiros – é composto de pessoas sexagenárias, pouco pacientes, um tanto quanto incompreensivas, muito exigentes; perfil este, aliás, comum a quase todos os moradores.

Da agenda constavam diversas obras, desde impermeabilizações, revitalização da fachada e pinturas. Para tanto, foram contratadas empresas de certo renome, mas, os contratos não foram devidamente revisados pela administradora, pela pressa que havia para começar e terminar todo o serviço. Assim, ficou estabelecido um rígido cronograma, cujo descumprimento ensejava pesada multa às empresas.

Iniciadas as obras, todas as outras frentes de trabalho, incluindo a pintura da escadaria, do hall do elevador de serviço e da porta do elevador transcorreram bem, exceto a de pintura do piso da garagem, no subsolo, que tinha secagem prevista para 48 horas, conforme cláusula contratual, e demandava a elaboração de uma logística bastante minuciosa e cuidadosa, em virtude das complexas realidades ali contextualizadas.

A começar, pela estrutura da garagem que como qualquer outra, também tinha a rampa de acesso. Porém, nessa, o detalhe é que, assim que os pneus dianteiros do veículo tocavam o piso da garagem, o motorista era obrigado a esterçar bruscamente para a esquerda e seguir pelo corredor de acesso às vagas, em sentido paralelo ao alinhamento da rua.

Considerando, então, a pressa com que as tarefas vinham sendo realizadas, simplesmente foi esquecida a programação do estacionamento dos veículos dos condôminos, que poderia ser tanto no posto de gasolina, ali na esquina – com capacidade para acomodar de cinco a seis carros, apenas – bem como nos estacionamentos mais próximos.

A obra foi ‘andando’. A pintura do piso começou dos fundos da garagem para frente, como programada. Os operários começavam bem cedo, para que a tinta estivesse totalmente seca no final do dia seguinte.

Até que chegou o momento de pintar o corredor de acesso, no último dia. Assim, todos os condôminos que fossem utilizar seu carro teriam que retirá-lo logo de manhãzinha.

De acordo com o prognóstico da conhecida máxima quando tem que dar errado, vai dar errado, justo nesse dia um ou dois condôminos ‘perderam a hora’, como se costuma dizer. Atrasaram, portanto, o início dos trabalhos…

A empresa, atenta ao contrato, não quis correr o risco de ser multada, caso não concluísse a pintura naquele dia. Sendo assim, a garagem ficaria interditada naquele dia e em todo o dia seguinte; afinal, eram 48 horas de secagem.

E, nesse mesmo dia, no finalzinho da tarde, já com o piso novinho em folha e intocado até aquele momento, começou a chover torrencialmente… Então, chegou um condômino que – diante da impossibilidade de estacionar na rua, defronte ao edifício – se recusou a vir a pé naquela chuvarada desde o estacionamento, a cerca de duas quadras dali.

Sendo assim, embicou seu carro na entrada da garagem, meteu a mão na buzina e não a tirou de lá, até que o porteiro acabasse por abrir o portão de acesso…

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Obras, imprevistos, regras, intransigência. Mistura explosiva no ambiente condominial, quase como a insubordinação de alguns condôminos em relação à segurança. Decantado em prosa e verso, esse tipo de atitude só compromete a (nem sempre) harmoniosa convivência, sem mencionar outras consequências igualmente desastrosas.

A parte vulnerável é, sem dúvida alguma, o profissional de portaria. Sem apoio da administração, moral ou regimentar, ele corre o risco de se ver demitido caso insista em confrontar esse tipo de condômino, a despeito de obedecer às regras estabelecidas.

Bastante diferente quando o síndico distribui circular enaltecendo e classificando como inegociáveis as normas estabelecidas. E ele mesmo entrega uma via na portaria e orienta a todos os envolvidos, zelador inclusive, que não haverá exceção, sob pena de atribuir ao condômino infrator os custos totais do serviço a ser refeito.

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Simples assim…

Ele havia acabado de se mudar para aquela quitinete de quarto-e-sala na nova cidade, que, até então, não conhecia.

Tudo era absolutamente novo, inclusive trabalho; as preocupações eram inúmeras…

– Que ônibus passa ali…? E na volta pra casa? Tenho que andar tudo isso?!

– A estação do metrô é longe? Supermercado? E lavar roupa? Essa feira fica onde?

À noite, exausto, deitava-se bem cedo. Ele se deliciava com todo aquele silêncio; há tempos não ouvia isso.

Mas, pouco tempo se passou, até que pudesse perceber a presença da vizinha de apartamento, bem ao lado do seu.

Ela trocava o dia pela noite, e tinha manias inacreditáveis… Para citar algumas, era de seu costume deixar a (única) porta de entrada aberta, falar muito tempo ao celular, muitas das vezes andando pelo corredor. E, tudo isto, em plena madrugada!

De outras vezes – sempre com a porta aberta – conversava com suas visitas, rindo alto e falando muito palavrão.

Nem é preciso lembrar que o tipo de construção em que morava não tinha nenhum isolamento acústico. Logo, era impossível conseguir dormir e descansar com todo aquele barulho!

Nas primeiras noites, até conseguiu relevar… Seu esforço e torcida para se desligar e voltar a dormir acabava dando resultado…

Mas, vivenciar tudo isto, todas as noites, passou a ser humanamente impossível. Tentou, então, um diálogo com a moça, sem nenhum sucesso…

Assim, nas várias madrugadas subsequentes, passou a ir à portaria para fazer o registro no livro de ocorrências do condomínio, trazendo o vigia para que se certificasse.

Foram muitos e muitos registros! Um depois do outro… Por muitas páginas, naquele livro só tinha a letra dele. E, aos poucos, outros registros foram surgindo: da vizinha do apartamento logo abaixo, do vizinho do outro lado…

E o síndico, oficialmente acionado, aventou a possibilidade de ajuizar ação para retirar a infratora dali; possibilidade esta, aliás, que demandaria certo tempo e, ao que tudo indicava, a situação já havia ultrapassado as raias do suportável.

Semanas se passaram… E, nada!…

Por sorte, um especialista foi consultado e outra estratégia, também regulamentar, foi sugerida e acatada pelo síndico.

Uma vez que a unidade era alugada pela mãe da moça, as multas a serem expedidas pelo seu reiterado comportamento antissocial seriam encaminhadas ao proprietário do imóvel e cópias dos avisos também seriam entregues a sua mãe.

Esta, ao saber pelo síndico que receberia o primeiro aviso, fez uma proposta irrecusável: se a multa fosse cancelada, providenciaria para que sua filha saísse do condomínio até o final da semana.

Um desfecho inesperado, em plena quinta-feira, para alívio de todos!

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A convivência é algo bem problemática. Quando nos deparamos com pessoas que não têm a mínima condição de viver em condomínios temos que, como se diz, “jogar com o regulamento”, e manter a civilidade, aliada a uma boa dose de paciência.

Claro que o pulso firme do síndico, ciente de questões desse tipo, pode ajudar a abreviar o desconforto das ‘vítimas’.

As regras da convenção e regimento também precisam ser claras. Mas, mesmo quando há lacunas nesses diplomas, gestores experientes podem direcionar a uma solução que interesse a todos, na estrita observação aos ditames legais.

Foram mais de três meses de sufoco! Ele nem desconfiou quando a imobiliária ofereceu um bom desconto no valor do aluguel.

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O condomínio: abordagens teóricas

Para aqueles que chegaram há pouco por aqui, em 20/04/2016 propus uma reflexão a cada uma das crônicas publicadas no livro “O condomínio daquela rua – Histórias e causos nesse ambiente peculiar” pela Editora Biblioteca 24horas, de São Paulo, usando-as como pano de fundo para uma releitura, sob o enfoque das boas práticas de gestão condominial, tendo sempre em vista a legislação, em toda sua amplitude.

São quarenta e três causos, alguns divertidos, outros curiosos, pitorescos, incomuns, até trágicos.

Vamos ver, em seguida, o causo “Simples assim…”.

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A quem interessar o livro está à venda no site http://www.biblioteca24horas.com.br/, e pode ser localizado no menu à esquerda, em “Contos” ou a partir da pesquisa pelo nome do autor. Quem residir em Brasília pode entrar em contato direto comigo.

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Ao ensejo, aproveito para divulgar também meu outro livro nessa área de condomínios, o Evolução Histórica do Condomínio Edilício, publicado em 2013 pela Scortecci Editora, de São Paulo, um interessante trabalho de pesquisa a respeito das origens do instituto chamado condomínio desde remotos tempos, em épocas bíblicas, até os dias atuais.

livro

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