Distração fatal… Causo #25

Ela morava num condomínio que se situava nas vizinhanças do bairro do Bexiga, na capital paulista. Sempre fora muito cuidadosa, ciente e ciosa de suas responsabilidades, seus direitos e deveres, enquanto condômina.

Não se sabe ao certo, mas o fato é que – no final de certa tarde – uma vela foi acesa na sala de seu apartamento, sobre uma mesa de madeira.

O ambiente ficou mais aconchegante; pasta, vinho… O jantar íntimo prometia…

De repente, o telefone tocou e toda a programação mudou… Iria rolar um cineminha.

– A que horas?

– […]

– Já?! Então tá, estou de saída!

Tomou um banho rápido, passou um perfuminho, retocou a maquiagem, colocou um traje descontraído.

No meio do filme – daqueles bons, épicos, cheios de ação – seu telefone começou a vibrar no bolso. Pediu licença, nervosa – tinha visto que o número do telefone era da portaria de seu condomínio – e saiu atropelando todos da fileira para, finalmente, atender à ligação.

O zelador, todo sem jeito, procurando palavras para dar a notícia a ela – de uma maneira mais suave – soltou:

– Dona Brigite, seu apartamento está pegando fogo!

Quando ela conseguiu chegar – após ter enfrentado o sempre caótico trânsito de São Paulo – os Bombeiros já tinham ido…

Depois deste episódio, soube-se que não mais se colocou vela alguma… Nem, mesmo, em bolo de aniversário!

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Incêndios em condomínios podem ter diversas e inusitadas origens, seja nas áreas comuns, seja nas unidades privativas.

Problemas na parte elétrica, por falta de manutenção, sobrecargas, fiação exposta, uso de benjamins (tês), pontas de cigarro jogadas em lixeiras, enfim, um sem número de situações podem propiciar a desagradável (e perigosa) experiência de se enfrentar esse tipo de incidente, às vezes de proporções inesperadas.

Com a crescente conscientização dos gestores quanto à importância de manutenções preventivas, tem-se notado certa diminuição nos acidentes daí decorrentes.

As últimas notícias veiculadas dão conta de que os incêndios em condomínios tem tido início dentro dos apartamentos, como o que aconteceu no caso narrado.

É preciso, portanto, que tenhamos muito, muito cuidado e atenção com velas acesas, celulares carregando, panelas no fogo ou algum quitute assando no forno: nessas e em outras circunstâncias jamais saia de casa, nem que seja para ir à esquina comprar um jornal na banca de revistas.

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Na quase calada… da noite Causo #24

O síndico, meio desconfiado de que poderia estar acontecendo coisas bizarras na portaria, conseguiu instalar uma microcâmera lá sem que ninguém ficasse sabendo.

Ele atribuiu uma senha ao sistema de reprodução das imagens e muitas vezes via o porteiro dando uns cochilos e, em outras, via a portaria ficar abandonada quando ele ia ao banheiro.

Decorrido pouco mais de uma semana, viu nas imagens uma moça chegando ao condomínio – altas horas – e entrando na portaria.

Depois de um breve diálogo entre ela e o porteiro começou a orgia, que durou horas a fio.

Naquela mesma tarde, o síndico esperou o porteiro da noite chegar ao condomínio para assumir seu posto, e o chamou.

– Tudo bem? Alguma coisa diferente aconteceu por aqui, na noite de ontem?

O porteiro, meio pálido, meio sem entender aquela pergunta, respondeu:

– Tudo em ordem, Sr. Policarpo. A noite transcorreu normal, sem nenhuma ocorrência.

Aí o síndico – sem nenhuma sutileza para que o porteiro visse o que ia fazer – subiu na cadeira e retirou a câmera escondidinha na tomada, lá no alto.

“Você sabe o que é isto?” – perguntou ao porteiro. Este pediu para ver mais de perto, ficou em dúvida inicialmente, mas sacou o que era.

E o síndico: – Você confirma que nada de diferente aconteceu nessa madrugada, por aqui?

O porteiro empalideceu, de vez!

Diante do silêncio do síndico, apresentou sua demissão.

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Dizem que não existe porteiro que não durma no trabalho…

Já houve casos em que o condômino, em dia de chuva forte, que dependia dele para abrir o portão de pedestres, ficou todo encharcado até que o porteiro ouvisse a campainha!

Sem entrar no mérito das providências que o síndico poderia tomar para evitar esse tipo de comportamento, vamos admitir que, no silêncio da noite, na quietude e na falta de movimentos durante a madrugada, fica difícil ‘segurar’ o cochilo.

Não obstante seja falta grave!

Afinal, todos sabem, a portaria é a principal célula de segurança do condomínio. Se seu principal guardião – o porteiro – não está atento, seja lá qual for o motivo, incidentes fatalmente ocorrerão. Isto é certo, é uma questão de tempo.

Tendo isso em vista é I-N-A-C-E-I-T-Á-V-E-L que o porteiro receba visitas noturnas para prazeres fugazes exatamente no seu local de trabalho, potencializando os riscos que envolvem a segurança do edifício e de todos os condôminos.

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As diminutas vagas de garagem…

Condomínios têm muitos problemas, diversas situações ensejam insatisfação, reclamações, enfim, desgaste para o síndico.

Dentre todos, um que nunca deixou de existir, é o ambiente das vagas de garagem. Registros há de tempos remotos em que se reclama de questões ali originadas.

Nem precisava, mas construtores e incorporadores deram uma “forcinha” extra para dificultar ainda mais a vida do síndico quando projetam, constroem, vendem e entregam edifícios com vagas, cuja utilização se torna improvável, para dizer o mínimo.

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Encravadas entre pilares, rampas, portas de acesso, elevadores, depósitos, algumas vagas estão ali apenas “para constar”.

A relação ‘tamanho da vaga’ versus ‘tamanho do veículo’ é inversamente proporcional. Aquela cada vez menor, este cada vez maior.

Muitos condôminos, para agravar o problema, têm camionetes, ou um carro de passeio dos grandes (naquela escala ‘compacto-pequeno-médio-grande’), outros trabalham com transporte escolar, por exemplo, e o veículo de que se utilizam, é a van. Aí, então, nem se fala!

Quando se consegue colocar um veículo desse porte, via de regra, é porque algumas vagas vizinhas certamente não estavam ocupadas naquele momento. Mas, e para sair?

É um problema de difícil solução. Quando tem, é cara, demorada e estressante. Para todos os envolvidos.

A ‘ousadia’ dos empreendedores em construir edifícios sem atender às regras dos respectivos códigos de obras municipais deve ser rechaçada pelo futuro condômino.

Quando em visita àquele imóvel que poderá ser seu lar, é preciso deixar um pouco de lado a emoção e racionalizar, analisando criteriosamente alguns aspectos, um deles certamente é a vaga, ou vagas, de garagem que corresponde(m) à unidade habitacional.

Se descuidar desse detalhe, dentre outros, obviamente, a reclamação posterior poderá não ser efetiva. O síndico não faz milagres, a justiça é morosa, os dissabores serão imensos.

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O impacto da inadimplência no bolso dos demais condôminos

Ao contrário de empresas, em que produtos entregues e serviços prestados representam receita, o condomínio depende – exclusivamente, em alguns casos – do pagamento da cota mensal aprovada em assembleia.

É com essa receita que a administração faz a “máquina andar”, pagando funcionários, contas de consumo, adquirindo produtos e serviços. É com essa receita que o síndico programa investimentos, como manutenções diversas, conservação da infraestrutura do edifício, aquisição de equipamentos de segurança, de lazer, enfim, cuida da valorização do patrimônio comum.

A primeira observação quando não pago minha cota – e não dá para colocar noutros termos – é que, a partir desse exato momento, estou sendo bancado pelos meus pares.

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Incômodo, não?!

A inadimplência crônica, assim chamada a que se estende ao longo do tempo, não apenas uma efêmera impontualidade, é nefasta sob os mais diversos pontos de vista.

Ela compromete a administração, dificulta ou impossibilita o correto planejamento na manutenção do prédio e seus equipamentos, de segurança inclusive, gera um clima de insatisfação nos demais, que são obrigados a fazer aportes mensais extras, na exata proporção do não-pagamento verificado, faz com que compromissos importantes (todos são!) não possam ser honrados.

Se a despesa mensal planilhada na previsão orçamentária do condomínio totaliza R$ 20 mil, por exemplo, é absolutamente imprescindível que esse total “entre no caixa”, apenas e simplesmente para que as contas mensais sejam quitadas a seu tempo.

Constatada a falta de pagamento de um ou mais condôminos, essa diferença terá que necessariamente ser rateada entre os demais pagantes pelo simples fato de que nenhuma daquelas contas então apresentadas pode ser postergada, sem que, com isso, haja alguma consequência indesejável ao condomínio (leia-se aos próprios condôminos), a curto, médio ou longo prazo.

Em nome da sadia convivência, penso que deveríamos nos esforçar para evitar que isso aconteça, mesmo cientes de que a cota condominial, numa análise superficial, é a dívida mais barata do país.

Sim, numa análise bem superficial, eis que, com o novo código de processo civil ora em vigor, o risco de ver seu imóvel indo a leilão por ordem judicial é bem concreto. Em muito menos tempo, quando se compara com a legislação anterior.

E veja que o síndico, mesmo que seja seu amigo, sua irmã, seu pai, sua filha, tem obrigação legal de cobrar os inadimplentes, inclusive em juízo.

Por que falei em ‘convivência’? Todos os condôminos sabem, ou têm que saber, a situação financeira em que se encontra o condomínio; o seu vizinho de garagem, inadimplente crônico, acabou de trocar de carro, um zero quilômetro lá estacionado, todo a caráter fazendo sua ginástica na academia, devidamente acompanhado de seu personal trainer… O que lhe vem à mente?

Ou, trocando de lado, você não paga sua cota há meses e continua desfrutando da piscina, da academia, do salão de festas, da churrasqueira, que sentimento imagina que desperta nos demais?

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Como é mesmo o nome do condomínio? Causo #23

Como gerente predial de um sofisticado e luxuoso condomínio na zona sul da capital, em fase final de obras, fiquei à frente de sua implantação.

A área comum era enorme, com inúmeros itens de lazer; logo, havia muito, muito que comprar…

Ficava o tempo todo pendurado no telefone, principalmente pela necessidade de um grande volume de contatos – tendo em vista a solicitação de cotações, preços, prazos de pagamento e de entrega – de tudo, enfim!

Todos, sem exceção, antes de ouvir o que se pretendia comprar, pediam os dados para cadastro.

Informar o endereço com CEP e tudo, CNPJ, telefone, nome do responsável pela compra, documento de identidade, etc., não era problema. O problema era dizer o nome do condomínio: “Oiseau Noir”, cuja pronúncia era oazô noar, pássaro preto, em francês.

Apesar de todo o cuidado em soletrar o nome do condomínio – para não vir escrito errado na proposta e principalmente na nota fiscal – num sem número desses documentos vinha escrito das formas mais variadas: Oazo Noar, Oazoo Noá, Oazô No Ar, e muitas outras.

Havia, até, junto ao telefone, cópia daquele alfabeto internacional: Alpha-A, Bravo-B, Charlie-C, Delta-D, Echo-E, Foxtrot-F, (…) até Yankee-Y, Zulu-Z.

E, para facilitar o entendimento, era soletrado:

– O de Oscar, I de India, S de Sierra, …

Até que, num belo dia, teve um… Ah, aquele!…

Nome do condomínio? – perguntou o vendedor.

– Oazô Noar. É nome francês e se escreve ‘Oiseau Noir’ (em se falando como estava escrito). São dois nomes, vou soletrar na linguagem de radioamador. Você conhece essa linguagem?

– Ok, conheço sim! Pode mandar!

– Oscar-India-Sierra-Eco-Alfa-Uniforme. Pegou?

– Sim!

– Tem o segundo: November-Oscar-India-Romeu. Ok?

– Tudo anotado!

A compra foi grande e a entrega chegou em dois dias.

Ao conferir a nota, qual não foi a surpresa: no campo ‘nome do condomínio’, estava escrito: “Condomínio Edifício OscarIndiaSierraEcoAlfa…”!!!

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Sim, esse tipo de coisa acontece com mais frequência do que se imagina. Afinal, nomes estrangeiros para se batizar empreendimentos imobiliários são os preferidos das construtoras e incorporadoras.

Tirante o desgaste a cada ligação, tendo que soletrar o nome, várias vezes ao dia, algumas vezes tinha que providenciar o cancelamento da nota fiscal e emissão de outra, com os dados corretos.

Não no condomínio, lá na loja do fornecedor!

Dos males, o menor, diante de tantos afazeres e responsabilidades na gestão do condomínio…

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Quem riscou meu carro? Causo #22

 

Eram três torres encravadas num grande terreno, entre duas ruas num bairro nobre da capital e tinha saída para as duas. Isso – numa metrópole de trânsito complicado – era uma grande vantagem.

As portarias e as garagens, no subsolo, eram compartilhadas.

Era como se fosse um único condomínio. Mas, longe disso… As convenções registravam tratar-se, em realidade, de três condomínios distintos, com síndico e conselheiros para cada edifício, diferentes administradoras, e tudo o mais.

Tudo ia bem, até que…

Um daqueles carros de colecionador, cujo dono morava no 603, apareceu com um risco na lateral, em leve tom de amarelo, embora haja controvérsias quanto a isto.

Como já fazia alguns dias que o acidente acontecera – conclusão tirada naquele momento – inferiu-se que o insensível infrator já tivesse providenciado o “conserto do amassado na sua lata velha”, nas palavras do colecionador.

Mesmo assim, naquela noite, com uma potente lanterna, eis o indignado morador do 603 à procura do famigerado carro amarelo, numa área enorme com, seguramente, mais de duzentos veículos estacionados!

E, quando identificou o possível causador do estrago no seu amado – e caríssimo – automóvel, constatou que pertencia ao outro prédio e não ao seu…

Assim, não sossegou enquanto o síndico de seu edifício não convocou assembleia para deliberar sobre a divisão física da área de garagem do condomínio!

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Garagem, é sabido, representa uma grande fonte de discórdias, embates, controvérsias.

Quando se trata da área de estacionamento de determinado empreendimento…

Ao tornar mais complexa essa relação, como descrito, mesclando três condomínios em uma só área, aí é adrenalina pura!

Além do nítido caráter de convivência que esse tipo de ambiente propicia, o cerne da questão é administrativo, senão vejamos: como aplicar sanção, específica do condomínio A, onde mora o colecionador, ao dono do carro amarelo, do condomínio B?

Soube-se depois, pelos corredores, que os dois envolvidos acabaram fazendo um acordo e tudo acabou bem.

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O condomínio: abordagens teóricas (cont.)

Para aqueles que chegaram há pouco por aqui, em 20/04/2016 propus uma reflexão a cada uma das crônicas publicadas no livro “O condomínio daquela rua – Histórias e causos nesse ambiente peculiar”, usando-as como pano de fundo para uma releitura, sob o enfoque das boas práticas de gestão condominial, tendo sempre como norte a legislação pertinente.

São quarenta e três causos, alguns divertidos, outros curiosos, pitorescos, incomuns, até trágicos.

Já vimos até o causo #21, vamos prosseguir.

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A quem interessar o livro está à venda no site http://www.biblioteca24horas.com.br/, e pode ser localizado no menu à esquerda, em “Contos” ou a partir da pesquisa pelo nome do autor. Quem residir em Brasília pode entrar em contato direto comigo.

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Ao ensejo, aproveito para divulgar também meu outro livro nessa área de condomínios, o Evolução Histórica do Condomínio Edilício, publicado em 2013 pela Scortecci Editora, de São Paulo, um interessante trabalho de pesquisa a respeito das origens do instituto chamado condomínio desde remotos tempos, em épocas bíblicas, até os dias atuais.

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